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23 fevereiro 2012

Choro do Alto


Cortina inquieta no vento,
cabeça no longe do tempo,
coração emudecido em pranto.
.
Tropeço de chuva na nuvem
debulhante sobre a rua
derrama, insone, a lembrança tua.
.
Pingos tempestuosos sucumbem,
transbordam o choro do alto
e somam-se em poças pequenas.
.
Debruço, prosaica, na janela.
Meus olhos misturam sal e chuva
lavando de dentro essa coisa que aperta,
... quisera...

''Choro do Alto' | nanquim + texturização digital | texto 2012 | ilustração 2011

Ouça 'Choro do Alto' aqui:

09 fevereiro 2012

Passarinho no Peito

tenho um passarinho no peito
um tímido sorriso sem jeito
carrego comigo trezentos defeitos
vivo os dias a me refazer
.
semeio palavras escritas
rasgo sem dó as histórias perdidas
cicatrizo as velhas feridas
remoldo a vida no papel machê
.
de cabelo solto no vento
caminho na beira da linha do tempo
cantarolando livre eu não penso
em nada além do querer
.
carimbo na testa o seu rosto
guardo na boca o seu gosto
o seu jeito é o meu melhor oposto
no meu coração só cabe você

'Passarinho no Peito' | nanquim + texturização digital | texto 2012 | ilustração 2012

Ouça 'Passarinho no Peito' aqui:

29 janeiro 2012

Tear

na melodia feia
de uma madrugada fria
me apareces melancólica
rezando preces
tecendo histórias
da tua dádiva ignorada:
a tua vida.

'Tear' | nanquim + texturização digital | texto 1998 | ilustração 2008

Ouça 'Tear' aqui:

15 janeiro 2012

Me Absorva


Me dê seu coração
para eu esmagá-lo entre os dedos.
Entregue-me ainda pulsando.
Se entregue tremendo de medo.
Derreta dentro e fora de mim...
Me absorva
que hoje eu tô transparente, rapaz.
Minta,
diga que não quer ninguém nunca mais.
.
Devoro esse sorriso
que ri junto com o olhar.
Uma chuva de sonhos fura o meu guarda-chuva.
- Deixe essa água me molhar!
Não quero toalha,
quero que só você me absorva,
que hoje eu tô sua demais.
Quero que minta.
Me diga que pra sempre a gente se refaz.

''Me Absorva' | nanquim + texturização digital | texto 2012 | ilustração 2012

Ouça 'Me Absorva' aqui:

22 junho 2011

Pelo Lixo Pela Lama

arrancas a mais profunda lágrima
dos olhos de quem te ama
arrastas pelo lixo
arrastas pela lama
o coração que já fora teu
quisera ele também não fosse meu

17 junho 2011

Tolos

enquanto todos riem
[talvez de mim]
eu soluço escondido
depois me viro
e dou gargalhadas
[talvez deles]
todos me olham
me chamam de louco
e vêm em minha direção
[talvez contra mim]
somos todos tolos
um todo
aprendendo a viver

'Tolos' | nanquim + colagem e sobreposição digital | texto 1998 | ilustração 2011

Ouça 'Tolos' aqui:



10 junho 2011

Meu Céu

às vezes sou passarinho
voando livre pelas curvas do mundo

pouso breve na nuvem drapeada
debaixo, um caçador à espreita
com sua pontaria afiada
certeira
rasgando o céu no meio
um tiro que sangra no ar
meu infinito que acaba
nunca chegarei
meu céu é lá

'Meu Céu' | nanquim + colagem e sobreposição digital | texto 1998 | ilustração 2008

Ouça 'Meu Céu' aqui:




02 junho 2011

Silêncio!...

Silêncio!...
Ouça as estrelas 
cavalgando 
nesta noite de prantos
E sinta a brisa 
nua
acariciando o seu corpo
sob a luz da lua
O seu leite branco 
derramando 
os sonhos distantes
da donzela louca
Silêncio!...
Silêncio!...

'Silêncio!...' | grafites + sobreposição e texturização digital | texto 1997 | ilustração 1999

Ouça 'Silêncio!...' aqui:


26 maio 2011

Peixe Fora D'água

agora basta!
você cisma em dizer que não me gosta
mergulha em minhas lágrimas e nada
nada...
sou um peixe fora d'água.

'Peixe Fora D'água' | nanquim + lápis de cor + recortes + texturização digital | texto 1998 | ilustração 2011

Ouça 'Peixe Fora D'água' aqui:


20 maio 2011

Desafogo

Seria sua aquela metade
ali descartada e toda quebrada?
Tenho notado a sua ausência em mim
Quantos cacos ainda restam
do tal amor irreciclável?
Me consomem risadas nervosas
e soluços insatisfeitos
Cadê você aqui no espelho
quando temo o meu oposto?
(não vejo o seu rosto)
Quisera não teimasse 
vaguear minha lembrança
Pode apontar-me o caminho?
Eu vou para o outro lado
Rumo ao longe...
distante do nada

'Desafogo' | nanquim sobre papel reciclado + sobreposição e pintura digital | texto 2011 | ilustração 2011

Ouça 'Desafogo' aqui:


13 maio 2011

Fornalha

Boto a cara no forno
Não tenho nada a perder
Com a cabeça quente
eu me vejo
mas falta você
Desgastada em tanto calor
queimo consumida em chamas
Grito, explodo, choro
Você diz que não me ama

'Fornalha' | nanquim sobre papel reciclado + sobreposição e pintura digital | texto 2011 | ilustração 2011

Ouça 'Fornalha' aqui:






27 abril 2011

Noturna

Debruçou-se sobre o cálice de vinho
que tinto escorreu pelo seu corpo
Cada curva circundava suas veias
Pulso a pulso titubeava verdades perfeitas
Olhava pela fresta com o verde que ensaiava tenso
Nua, se vestia com o meu abraço lento
Num choro quieto, sorriu entre feridas
Perguntou meu signo, falou de arte e contou como levava a vida
Seu olhar vagueava pela sinfonia estreita
Meu corpo permanecia fechado a ideias mal feitas
Seu deslumbre
um papo
o lençol manchado
Cada viagem interna era um assunto calado
A noite percorreu cegando
À lua, o sono veio germinar o acalanto
Deitou-se no meu colo sem pensar em mais nada
Adormecida, eu a deixei ali, sobre aquela cama molhada

'Noturna' | nanquim sobre papel reciclado + sobreposição e pintura digital | texto 2011 | ilustração 2011

Ouça 'Noturna' aqui:



14 abril 2011

Amarílis

{ à estátua colorida
  que há cem anos dormia
  e acordou sem sua cor }

'oh, que susto!', ela pensou
despertou em preto e branco
desolada, estava aos prantos
e bem baixinho sussurrou
'encontrarei o malfeitor...'

desbotaram-lhe as bochechas
a pintura dos seus olhos
e o batom cor de cereja

já não tinha qualquer viço
e nem as flores no cabelo
sumiu-lhe até o brinco!
chorava, chorava...

quem roubou seu arco-íris
ó, estátua tão bonita
minha doce amarílis?

procurou pelas estrelas
nos brinquedos, guloseimas
no oceano, nas gavetas
até nos potes de aquarela
e nada de achar as cores dela

foi até num picadeiro
na arena viu de tudo
malabares, bailarinas
e um palhaço bem matuto

encheu-se de esperança
e ao encontro do mágico
perguntou sem relutância
'há cores dentro da sua cartola?'
ele debochou e nem deu bola

desgostosa e descontente, parou na livraria
perguntou para a atendente
'aqui vende livros, não vende?'
a moça logo notou sua triste fisionomia

folheou livro por livro
admirou cada desenho
se encantou com o colorido
esfregou na sua pele
mas não teve desempenho

cansada de ziguezague
refastelou-se sob uma árvore
avistou um fotógrafo inerte
curiosa, deu-lhe boa tarde

ele sorriu desajeitado
ela achou graça do seu jeito
mas não hesitou em tirar proveito
'moço, você me tira um retrato?'

e no clique do obturador
ela imaginou de volta a sua cor
mas ao ver sua fotografia
foi-se qualquer resquício de alegria

olhou bem o pedaço de papel
passarinhos amarelos, outros cor de mel
rosas e violetas esparramadas pelo chão
mas as cores da coitada, ali não estavam não

exausta, continuou sua andança
chegou a uma casinha bem modesta
ficou feliz que nem criança
'ah, um aconchego no meio da floresta!'

entrou sem nenhuma cerimônia
deparou-se com um homem sério
maltrapilho, bigodudo e usava boina
ele achou a invasão um baita despautério!

ela contou sua história
ele achou tudo muito estranho
mas dos seus olhos castanhos
uma lágrima caiu quase simplória

ofereceu-lhe o seu ofício
'sou pintor, olha pra isso!'
mostrou-lhe um arsenal de tintas
ela riu, riu, riu...
como sempre estava linda
(mesmo assim, descolorida)

pediu ao pintor as cores da sua paleta
'por favor, começa pintando a minha cabeça?'

e o artista pincelou sua bochecha
devolveu à sua boca a cor de cereja
fez o brilho do cabelo reaparecer
pintou os seus olhos coloridos
tão astuto, refez até seu brinco
pois moldava muito bem o papel machê

assim, o malfeitor era só uma lembrança
ela passou a achar besta aquela ideia de vingança
voltou para onde sempre viveu
subiu em seu pedestal, lá naquele antigo museu

então cercou-se de mil cores latentes
vestiu as suas roupas prediletas
e foi visitada por muita gente importante
dentre tantos, o mágico, o pintor e o poeta
viveu ali para todo o sempre
bem mais bonita do que antes

'Amarílis' | fotografia (Fernando Bernardes) + colagem digital | texto 2011

Ouça 'Amarílis' aqui:


29 março 2011

Desencontros e Despedidas

No meio daquela avenida
Às quatro horas da tarde
Algo me pulou do peito
Tremi, fiquei sem jeito
  Um grito
  Um suspiro
  Um alarde
Num segundo dos olhos fechados
Acordei toda lembrança
Memórias já quase esquecidas
Desencontros e despedidas
  A palavra brava
  A bronca mansa
Olhei confusa
Parei no meio
Na multidão me vi só
O infinito inteiro ao meu redor
  Me conta como
  Por que
  E a que veio

'Desencontros e Despedidas' | lápis de cor + colagem e sobreposição digital | texto 2010 | ilustração 2006

Ouça 'Desencontros e Despedidas' aqui:

14 dezembro 2010

L'amour

'L'amour' | nanquim sobre papel reciclado + colagem e sobreposição digital | ilustração 2010
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