Aquele pé quebra no galho,
o nosso pé brota nas mãos.
Dedos enlaçados num amor-chocalho,
apertados numa multidão de nervos.
É o pé do amor, este (olham-se nos dedos)
que nasce e cresce sem medo.
.
O pé nas mãos germina cedo,
nasce um botão de zelo, para cuidar.
Colorido da diferença dos nossos temperos
num assimétrico coração aberto,
que agora diz, me jurando que é sério:
'Ocupado, coração sem espaço'.
O sorriso é largo, eu mostro os dentes fácil
(ele fita seus dentes e faz ar de mistério).
.
No riso, tiro a sandália e ando descalço na terra.
As cortinas de chita voam, bonitas,
nas casas que estão com a janela aberta.
O pé tá nas mãos, enraizado pós-primavera.
.
Plantados numa multidão de areia e mar,
com chão de pedra, pro cavalo galopar,
você me pede: 'Segura forte minha mão,
não solta nunca mais,
temo a falta que você me faz'
(eles se abraçam bem debaixo do baobá).
'Não censuremos nossas asas',
digo, com o dedo encaixado no seu umbigo.
A gente se beija, eu fico sem ar.
.
Rega de calor, para o pé não secar,
refresco de fim de tarde (olham-se nos passos).
'Me espreme forte entre seus braços'.
Com o pé do amor crescente à lua,
minha vergonha declara em segredo:
'Serei pra sempre seu melhor avesso,
sou pra sempre sua'.
.
(Dão-se as mãos, engalhadas num monte de raízes).
.
Da vontade de ser todo dia um sempre começo,
seguem uma vida toda naquelas ruas.
Levam na bagagem aconchegos, corações e cicatrizes,
umas minhas, poucas nossas, outras suas.
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27 abril 2012
09 fevereiro 2012
Passarinho no Peito
tenho um passarinho no peito
um tímido sorriso sem jeito
carrego comigo trezentos defeitos
vivo os dias a me refazer
.
semeio palavras escritas
rasgo sem dó as histórias perdidas
cicatrizo as velhas feridas
remoldo a vida no papel machê
.
de cabelo solto no vento
caminho na beira da linha do tempo
cantarolando livre eu não penso
em nada além do querer
.
carimbo na testa o seu rosto
guardo na boca o seu gosto
o seu jeito é o meu melhor oposto
no meu coração só cabe você
um tímido sorriso sem jeito
carrego comigo trezentos defeitos
vivo os dias a me refazer
.
semeio palavras escritas
rasgo sem dó as histórias perdidas
cicatrizo as velhas feridas
remoldo a vida no papel machê
.
de cabelo solto no vento
caminho na beira da linha do tempo
cantarolando livre eu não penso
em nada além do querer
.
carimbo na testa o seu rosto
guardo na boca o seu gosto
o seu jeito é o meu melhor oposto
no meu coração só cabe você
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| 'Passarinho no Peito' | nanquim + texturização digital | texto 2012 | ilustração 2012 Ouça 'Passarinho no Peito' aqui: |
10 junho 2011
Meu Céu
às vezes sou passarinho
voando livre pelas curvas do mundo
pouso breve na nuvem drapeada
debaixo, um caçador à espreita
com sua pontaria afiada
certeira
rasgando o céu no meio
um tiro que sangra no ar
meu infinito que acaba
nunca chegarei
meu céu é lá
voando livre pelas curvas do mundo
pouso breve na nuvem drapeada
debaixo, um caçador à espreita
com sua pontaria afiada
certeira
rasgando o céu no meio
um tiro que sangra no ar
meu infinito que acaba
nunca chegarei
meu céu é lá
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| 'Meu Céu' | nanquim + colagem e sobreposição digital | texto 1998 | ilustração 2008 Ouça 'Meu Céu' aqui: |
29 março 2011
Desencontros e Despedidas
No meio daquela avenida
Às quatro horas da tarde
Algo me pulou do peito
Tremi, fiquei sem jeito
Um grito
Um suspiro
Um alarde
Num segundo dos olhos fechados
Acordei toda lembrança
Memórias já quase esquecidas
Desencontros e despedidas
A palavra brava
A bronca mansa
Olhei confusa
Parei no meio
Na multidão me vi só
O infinito inteiro ao meu redor
Me conta como
Por que
E a que veio
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| 'Desencontros e Despedidas' | lápis de cor + colagem e sobreposição digital | texto 2010 | ilustração 2006 Ouça 'Desencontros e Despedidas' aqui: |
21 março 2011
Rebuliço
16 dezembro 2010
Recomeço
Recomeço do meio do caminho
Levo toda a bagagem do que já ficou pra trás
Descarto da bolsa um velho ponto final
Levo toda a bagagem do que já ficou pra trás
Descarto da bolsa um velho ponto final
O que era tão certo torna-se evasivo
Meu mundo gira em ciclos
Numa ciranda vital
Histórias ligadas num desconexo
Cacos de vidro me refletem no chão
Jogo pro alto as doces metáforas
14 dezembro 2010
09 dezembro 2010
Pausa
Afogada nessa rotina
Ejeto de mim um transtorno barato
Assim tão cansada
Não falo nada
Não ouço nada
Não penso
Nem meço
Sou jogada que nem pingue-pongue
Pra dentro de um ringue eletrônico
Eclodo num ataque de nervos
Fico invisível
Sumo do mapa
Saio de cena
Preciso de pausa
Ejeto de mim um transtorno barato
Assim tão cansada
Não falo nada
Não ouço nada
Não penso
Nem meço
Sou jogada que nem pingue-pongue
Pra dentro de um ringue eletrônico
Eclodo num ataque de nervos
Fico invisível
Sumo do mapa
Saio de cena
Preciso de pausa
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| 'Pausa' | nanquim sobre papel reciclado + colagem e sobreposição digital | texto 2010 | ilustração 2010 Ouça 'Pausa' aqui: |
08 dezembro 2010
Bolero
Quando se acharam
No escuro daquele quarto
A ambos nada era claro
*
O silêncio deu tom ao bolero
Dançado ao som do mistério
*
... Os copos trêmulos
Os pés descalços
O medo
E um abraço não ensaiado...
*
De repente a luz acendeu
*
Despediram-se num interlace de olhares
- Faiscantes
Quase vulgares -
Já ansiavam um próximo breu
*
E ela conteve nos lábios
- Tão finos
Num rosto já pálido -
A cor do último adeus
No escuro daquele quarto
A ambos nada era claro
*
O silêncio deu tom ao bolero
Dançado ao som do mistério
*
... Os copos trêmulos
Os pés descalços
O medo
E um abraço não ensaiado...
*
De repente a luz acendeu
*
Despediram-se num interlace de olhares
- Faiscantes
Quase vulgares -
Já ansiavam um próximo breu
*
E ela conteve nos lábios
- Tão finos
Num rosto já pálido -
A cor do último adeus
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| 'Bolero' | nanquim sobre papel reciclado + colagem e sobreposição digital | texto 2010 | ilustração 2010 Ouça 'Bolero' aqui: |
07 dezembro 2010
Lágrimas Negras
06 dezembro 2010
De Conversa
Foi um encontro passageiro
Breve, fugaz e quase nulo
Numas de fingir que não o vi
Ele se demonstrou um imaturo
*
Cheio de lero lero
Veio de conversa fiada
Contou milhões de abobrinhas
Falou, falou e não disse nada
*
Me esquivei num rodopio
Do seu blá-blá-blá teimoso
Lhe dei um sonoro chega pra lá
Ele, se achando, ficou furioso
*
Fui embora sem despedidas
Já ele, gritou um sonoro tchau
De saco cheio, não pensei duas vezes
Saí correndo e fugi desse cara de pau
Breve, fugaz e quase nulo
Numas de fingir que não o vi
Ele se demonstrou um imaturo
*
Cheio de lero lero
Veio de conversa fiada
Contou milhões de abobrinhas
Falou, falou e não disse nada
*
Me esquivei num rodopio
Do seu blá-blá-blá teimoso
Lhe dei um sonoro chega pra lá
Ele, se achando, ficou furioso
*
Fui embora sem despedidas
Já ele, gritou um sonoro tchau
De saco cheio, não pensei duas vezes
Saí correndo e fugi desse cara de pau
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| 'De Conversa' | nanquim sobre papel reciclado + colagem e sobreposição digital | texto 2010 | ilustração 2010 Ouça 'De Conversa' aqui: |
02 dezembro 2010
Outro Lado
Às vezes me perco num detalhe.
Ou numa imensidão deles.
Deu luz ao meu desenho e me fez sorrir feito boba.
Sua visão delicada e sutil me fez (re)descobrir a magia do Outro Lado.
Suspirei à lembrança: eu já estive lá...
Ou numa imensidão deles.
A salada não seria tão saborosa sem o fio de azeite.
A primavera não seria tão colorida sem a presença das flores.
O cachorro não seria tão feliz sem receber a atenção do amigo.
Foi quando Fe me achou, perdida num mero momento clichê.Deu luz ao meu desenho e me fez sorrir feito boba.
Sua visão delicada e sutil me fez (re)descobrir a magia do Outro Lado.
Suspirei à lembrança: eu já estive lá...
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| 'Outro Lado' | nanquim sobre papel reciclado + colagem e sobreposição digital | texto 2010 | ilustração 2010 |
30 novembro 2010
Ninho
A maioria dos meus rabiscos habita superfícies pequenas, bem pequenas...
Costumam ter, em média, 10 centímetros.
Mas Ninho tem metade.
Precisou partilhar sua morada com a letra de uma música e um número de telefone.
Tão pequeno, que quando escaneado aparenta leve distorção.
Não tem problema...
Ele é um rabisco amado mesmo assim.
Costumam ter, em média, 10 centímetros.
Mas Ninho tem metade.
Precisou partilhar sua morada com a letra de uma música e um número de telefone.
Tão pequeno, que quando escaneado aparenta leve distorção.
Não tem problema...
Ele é um rabisco amado mesmo assim.
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| 'Ninho' | nanquim sobre papel reciclado + colagem e sobreposição digital | texto 2010 | ilustração 2010 |
26 novembro 2010
Uma Frida
Meu horário para devaneios é à noite, deitada na cama.
Por isso, às vezes o traço sai meio torto, desengonçado, distraído...
Mas eu gosto dessa imprecisão, da incerteza, do deslizar livre da caneta sobre o papel.
E numa noite dessas, brotou no meu caderno Uma Frida.
Ei-la: descolorida, mas cercada de cores...
Por isso, às vezes o traço sai meio torto, desengonçado, distraído...
Mas eu gosto dessa imprecisão, da incerteza, do deslizar livre da caneta sobre o papel.
E numa noite dessas, brotou no meu caderno Uma Frida.
Ei-la: descolorida, mas cercada de cores...
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| 'Uma Frida' | nanquim sobre papel reciclado + colagem e sobreposição digital | texto 2010 | ilustração 2010 |
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